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terça-feira, 29 de junho de 2010

Temple Grandin: O mundo necessita de todos os tipos de mente


Temple Grandin, diagnosticada com autismo na infância, fala sobre como a sua mente funciona - compartilhando a sua habilidade de "pensar em imagens", que a ajuda a resolver problemas que cérebros neurotípicos não conseguiriam. Ela traz à tona que o mundo precisa de pessoas com o espectro autista: pensadores visuais, pensadores em padrões, pensadores verbais e todos os tipos de crianças espertas e inteligentes.

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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Temple Grandin - Tradutora Animal

Temple Grandin é autista. Porém, essa cientista venceu as barreiras e hoje leciona na Universidade do Colorado, EUA. Segundo ela, seu autismo teria lhe dado uma janela para o mundo mental dos bichos. " Animais e autistas pensam de um jeito parecido", diz.

Na adolescência, freqüentou uma escola especial para jovens com "problemas emocionais", na qual o contato com cavalos, era parte do currículo. Tratar dos bichos todos os dias lhe deu estabilidade emocional. "Os animais me salvaram", afirma ela.

Temple é portadora da síndrome de Asperger, uma das muitas condições de autismo A própria cientista descreve: sua mente funciona como uma sucessão de imagens ultra detalhadas. Falar sempre foi um sacrifício para Temple. O ponto aqui é uma memória detalhada em termos visuais. Pessoas normais vêem a floresta inteira - ela vê as árvores isoladamente.

Em humanos normais, tudo o que acontece nos 3 "cérebros" é amarrado e transformado num conjunto consistente em regiões especializadas do neocórtex. Os animais têm essa região muito pouco desenvolvida - mas nem sempre. As pessoas normais usam os lobos frontais e o neocórtex para criar uma visão "lógica" do mundo, num todo coerente. Os autistas têm lobos frontais perfeitamente normais, mas provavelmente não estão bem ligados ao resto do cérebro. O problema é a falta de evidências sólidas."

O que a mente animal tem a ver com isso tudo? Na prática, lobos frontais "desconectados" ou pequenos acabam dando resultados parecidos. Tanto animais quanto autistas vêem o mundo de forma muito mais imediata, fragmentada e baseada nos sentidos, dando atenção aos menores detalhe. Por isso é que, nas instalações de abate com problemas, os donos dificilmente sacavam o que estava deixando os bichos assustados, digamos. Era algum detalhe que os sentidos humanos normais deixavam passar. Porcos não queriam atravessar um piso metálico cheio de poças d''água com reflexos que eles achavam assustadores; vacas eram forçadas a sair de uma passagem escura para um pátio iluminado, ou vice-versa. Muitos dos casos envolviam um contraste brusco - para os sentidos dos animais.

A diferença é que o cérebro humano tem uma capacidade de filtrar detalhes do ambiente. Grande parte dos autistas, têm uma sensibilidade aguçada para as mudanças insignificantes, o que normalmente lhes causa muito desconforto - outro paralelo com a mente animal.

O mundo emocional dos bichos é outro indício de como seu cérebro e o dos autistas pode estar organizado de forma parecida. As emoções básicas de animais e pessoas são as mesmas: medo, raiva, curiosidade, atração sexual, ligação social ("amizade"). A diferença, é que a menor capacidade do cérebro animal para associar coisas ajudaria a manter essas coisas separadas. Bichos não têm relações de amor e ódio com alguém: se o seu cão te ama, ele te ama e ponto.

Animais também saltam com a maior facilidade de um momento de raiva para outro de tranqüilidade. O mesmo valeria para os humanos com autismo. Nessa falta de intimidade com as nuances emocionais pode estar a raiz da dificuldade que os autistas têm em se relacionar e se comunicar com outras pessoas.

Há também relatos de que pessoas com autismo, tal como muitos animais, têm uma percepção mais amena da dor física. Temple atribui isso a uma possível falta de conexão entre a dor e sentimentos como ansiedade e preocupação.

A memória fotográfica e a capacidade de perceber detalhes são só a ponta do iceberg. Simples ratos de laboratório parecem ter senso de humor e emitem sons que só poderiam ser classificados de riso; a complexidade do canto dos pássaros e das baleias dão um vislumbre de como a nossa própria linguagem pode ter evoluído. Ainda que a analogia com o autismo tenha seus problemas, as pontes entre nós e eles devem se tornar cada vez mais fortes.

Texto extraído do site SHVOONG

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Famosos com traços autistas

Thomas Jefferson - Mencionado no livro Diagnosing Jefferson, de Norm Ledgin, como tendo possívelmente Síndrome de Asperger,foi presidente dos Estados Unidos de 1800 a 1808. Nasceu em 1743 na Virgínia (EUA). Formou-se em Direito. Em 1776 redigiu a Declaração da Independência. Foi vice-presidente e, em 1800, eleito presidente e re-eleito novamente em 1804. Casou-se e teve filhos. Morreu em 1826. Algumas de suas frases:

"Quando nervoso, conte ate dez antes de falar; Se você estiver muito nervoso, até cem." (Thomas Jefferson para Thomas Jefferson Smith, 21de fevereiro de 1825)

"Os dois princípios a que nossa conduta com os índios deve ser fundada são a justiça e o medo. Depois do sofrimento que causamos a eles, não conseguem nos amar..." (Thomas Jefferson para Benjamin Hawkins, 13 de agosto de 1786)

"Nossa liberdade depende da liberdade de imprensa, e não se pode ter limitações sem se perder".

Vincent Van Gogh - (citado por Temple Grandin no livro "Thinking in pictures" como tendo características autistas) foi um grande pintor, que em vida só conseguiu vender uma pintura. Nasceu em 1853 em Holanda. Quando criança gostava de ficar sozinho, tinha dificuldade de se relacionar com outros, sofria acessos de raiva, aparentava sempre estar em outro mundo.Só foi descobrir seu talento para a arte aos 27 anos. Suicidou-se em 1890.

Frase: "Eu não posso pensar em uma definição melhor para o mundo da arte do que essa: natureza, realidade, verdade; mas com significados... Um caráter que o artista traz dentro dele, e a ele dá expressão".

Albert Einstein - Nasceu na Alemanha em 1879 e tinha a Síndrome de Asperger. Foi um grande cientista e desenvolveu as duas teorias da relatividade (a restrita e a geral). Einstein só falou aos três anos e repetia frases para ele mesmo até os sete anos de idade. Nunca foi considerado um gênio na infância, aliás, tinha algumas dificuldades: preferia brincar sozinho não se socializava bem. Apesar de ser tranqüilo tinha rompantes de insatisfação.

Foi casado duas vezes e teve dois filhos no primeiro casamento. Em 1922, recebeu o prêmio Nobel de Física. Em 1933, temendo os nazistas por ser judeu, mudou-se para os Estados Unidos, onde se tornou cidadão americano em 1940. Foi professor da Universidade de Princeton. Seus alunos tinham dificuldades de acompanhar suas classes (segundo Temple Grandin por que ele pensava visualmente e os outros não o acompanhavam). Morreu em 1955 de um ataque cardíaco. Foi eleito pela Revista Times Magazine como personalidade do século pelo seu descobrimento. Frase:

"O único homem que está isento de erros, é aquele que não arrisca acertar".

Ludwing Wittgenstein - foi sugerido por Oliver Sack que ele teria traços de um autista "high-Functioning" de bom funcionamento. Era um filosofo.Teve dificuldade para desenvolver a fala começou a falar com quatro anos. E era considerado um idiota na infância. Sempre foi um péssimo estudante, mas tinha grandes habilidades mecânicas. Construiu uma máquina de costura com apenas 10 anos.

Bill Gates - (citado no livro "Thinking in pictures" de Temple Grandin como tendo características autistas) é diretor da Microsoft e inventor do Windows. Nasceu em 1955 em Seattle (EUA). Gates se balança continuamente durante reuniões de negócios e em aviões (autistas fazem isso quando nervosos), não gosta de manter contato olho-aolho e tem pouca habilidade social. Não dá importância à sua aparência.

Matéria retirada do site Autimismo

Autistas famosos

Dra. Temple Grandin - Nasceu em 1947 e foi diagnosticada como autista aos dois anos. É PHD em Ciência Animal e professora da Universidade do Colorado. Grandin oferece várias palestras sobre autismo além de ter escrito alguns livros sobre a sua experiência como autista. Inventou a "Squeeze-Machine" ("Máquina do aperto") para ajudá-la nas suas dificuldades sensoriais. No seu livro "Thinking in Picture" Grandin relata que a sua primeira língua foi visual e como esta experiência a ajudou profissionalmente. A Dra. Grandin diz que conseguiu sucesso graças às oportunidades de mentores na escola e o apoio da família, principalmente o da mãe. Sua mãe publicou um livro "A thorn in my pocket" sobre sua experiência de criar uma criança autista em um tempo que as mães eram consideradas culpadas pelo autismo dos filhos e suas crianças eram encaminhadas para uma instituição por não existir cura.

Matthew Savage foi diagnosticado com autismo (Pervasive Developmental Disorder) quando tinha três anos de idade. Os pais começaram então a seguir o protocolo DAN. Matthew naquela época não suportava sons, mas com a "auditory integration Therapy" (terapia de integração auditiva) conseguiu superar este problema. Os pais de Mattew usaram a fascinação do menino por palavras e, exploram o seu lado visual, para estimular e complementar as atividades. Hoje, com 11anos, ele compõem música e tem um trio de jazz. " The Matt Savage Trio" participa de festivais de Jazz e da concertos, sempre lotados, pelos EUA e Canadá. Já lançou três CDs e o dinheiro arrecadado com a venda foi doado para pesquisas sobre autismo. Matt continua com dificuldades de comportamento, fixação por certos assuntos, com dificuldade para se desligar deles. As vezes não compreende o que falam com ele ou compreende de maneira diferente.

Ryan Wilson é um autista de bom funcionamento ("High Functioning") e estava com nove anos quando escreveu e ilustrou o livro "The legendary Blobshocker". Com a ajuda da professora Beth Alshanskey da Universidade de New Hampshire, que usou um programa de colagem (arte) e ensinou a Ryan como usar sua criatividade e seu talento visual para aprender literatura e explorar estas habilidades.

Tito Rajarshi Mukhopadhyay - um adolescente do sul da Índia que foi diagnosticado com autismo clássico aos três anos. Ele se balança, gira, faz movimentos repetitivos, faz barulhos estranhos, não consegue ler expressão do rosto de outras pessoas, não mantém contato olho-a-olho. Embora tenha um autismo clássico ele consegue expressar seus pensamentos e sentimentos. Descreve como se sente preso a um corpo autista, um caso único.
Segundo Tito ele se balança e faz movimentos repetitivos com as mãos para conseguir sentir o seu corpo. Não olha no olho porque só consegue processar um sentido de cada vez, ou seja, não consegue ver e escutar ao mesmo tempo (só foi perceber que isso não era normal ao se dar conta que outras pessoas podiam usar outros sentidos juntos). Uma mãe perguntou a ele em uma conferência qual o conselho que daria aos pais de autistas. Ele disse "Acreditem nos seus filhos". Tito é fluente em inglês e bengali (tem dificuldades para falar e ser compreendido escreve muito bem e é mais fácil para ele escrever no computador) têm dois livros publicados: Beyond the silence: My life, the world, and autism e The mind tree: A miraculous child breaks the silence of autism. Ele conseguiu superar as barreiras que o autismo lhe proporcionou graças à mãe Soma Mukhopadhyay que desenvolveu uma maneira de ensinar e comunicar com o filho chamada "The rapid Prompting Method".

Jerry Newport - nasceu em 1948 e foi diagnosticado com síndrome de Asperger em 1995 Possui um B. A em Matemática pela Universidade de Michigan. Trabalha como free-lance accounting, participa de palestras sobre Autismo/Asperger pelos Estados Unidos e também escreve para revista Autism Asperger´s Digest Magazine. É casado com Mary Newport que também tem Síndrome de Asperger. Escreveram juntos o livro "Autism-Asperger´s and sexuality puberty and beyond". A vida dele é tema do filme "Mozart and the Whale".

Donna Willians - É uma australiana que antes de receber o diagnostico de autista foi taxada de louca, de ter distúrbios emocionais, fez vários testes de surdez. Não conseguia responder simples perguntas ou ficar sentada por muito tempo. Oas 24 anos ela começou a dieta sem glúten, caseína, açúcar, nenhum tipo de conservantes, corantes e pouco salicitato (ela continua na dieta). Donna relata que se sentia como uma drogada com a única diferença que não usava drogas, mas certos alimentos faziam com que ela agisse assim. Hoje ela é casada, trabalha como consultora em uma escola, participa de palestras sobre autismo e também escreve música, pinta e faz esculturas.

Matéria retirada do site Autimismo

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Problemas auditivos por Temple Grandin

Minha audição funciona como se eu usasse um aparelho auditivo cujo controle de volume só funciona no "super alto". É como se fosse um microfone ligado que capta todo barulho ao redor. Eu tenho duas escolhas: deixar o microfone ligado e ser inundada pelo barulho, ou desligar. Minha mãe conta que algumas vezes eu agia como fosse surda. Testes e exames mostravam que minha audição era normal. Eu não consigo moderar os estímulos auditivos que entram por meus ouvidos. Muitos autistas têm problemas como este (Ornitz, 1985). Em geral eles têm reações exageradas ou mínimas. Ornitz (1985) sugere que algumas das deficiências cognitivas podem ser causadas por distorções sensoriais. O autismo também traz profundas anormalidades nos mecanismos neurológicos que controlam a capacidade da pessoa de mudar o foco de atenção em meio a diferentes estímulos (Courchesne, 1980).

Eu não sou capaz de falar ao telefone dentro de um escritório barulhento ou aeroporto. Todo mundo consegue falar ao telefone num ambiente barulhento, mas eu não. Se eu tento apagar de minha mente o barulho que está num pano de fundo, eu acabo apagando também a conversa do telefone. Uma amiga minha, com pouco comprometimento autístico, tem um problema semelhante ao meu, só que pior. Ela não consegue ouvir uma conversa numa sala relativamente quieta de um hotel.

Os autistas devem ser protegidos dos barulhos que os incomodam. Barulhos altos e bruscos doem meus ouvidos como se fosse a broca de um dentista pegando um nervo. Um homem autista de Portugal muito dotado escreveu: "Eu saltava de dentro de mim quando ouvia barulho de animais" (White & White, 1987).

A criança autista cobre seus ouvidos porque certos sons doem. O barulho freqüentemente faz meu coração disparar. Anormalidades no cerebelo podem ter um importante papel em aumentar a sensibilidade aos sons. Pesquisas em ratos indicam que o "vermis" do cerebelo modula a entrada sensorial (Crispin & Bullock, 1984). Estímulos no cerebelo de um gato com um eletrodo tornarão o gato supersensível à sons e toques (Chambers, 1947).

Eu continuo detestando lugares confusos e barulhentos, tais como os Shopping Centers. Barulho contínuo e estridente como o do secador de cabelo ou ventilador de banheiro é irritante. Eu consigo fechar a minha audição e me ausentar da maior parte dos diferentes tipos de barulhos. Porém algumas freqüências são impossíveis de serem desconsideradas. É simplesmente impossível que uma criança autista se concentre em sala de aula se ela estiver sendo bombardeada com barulho que penetra sua mente como se fosse o motor de um avião. Quando eu era criança, a governanta da minha família costumava me punir enchendo uma sacola de papel de ar e estourando essa sacola em meus ouvidos. Para mim era uma tortura.

Mesmo agora eu ainda tenho problemas em "me desligar". Às vezes eu estou ouvindo uma música que gosto e de repente percebo que perdi a metade da música. Minha audição simplesmente se fecha automaticamente. Na faculdade eu tinha que ficar tomando notas o tempo todo para evitar que isso acontecesse.

O homem de Portugal que eu citei também escreveu que manter uma conversa é muito difícil. A voz da outra pessoa ficava longe como se fosse uma estação de rádio distante (White & White, 1987).

Trecho extraído do texto - Uma visão interior do autismo por Temple Grandin.

Ritmo e música por Temple Grandin

Durante meus anos escolares primários, a minha fala não era completamente normal. Geralmente eu gastava mais tempo do que as outras crianças para conseguir colocar minhas idéias para fora. Cantar, porém, era bem fácil. Eu sou afinada e consigo, sem nenhum esforço, sussurrar uma música que ouvi apenas uma ou duas vezes.

Eu ainda tenho muitos problemas com o ritmo. Consigo bater palmas num determinado ritmo sozinha, mas sou incapaz de sincronizar o meu ritmo com o ritmo de outra pessoa. Park e Youderian (1974) notaram uma falta de ritmo em pessoas autistas tocando piano. Os problemas de ritmo podem estar relacionados com alguns problemas de fala. Os bebês normais se movem em sincronia com a fala dos adultos (Condon & Sander, 1974). Os autistas não conseguem isso. Condon (1985) também descobriu que os autistas têm grande dificuldade em se orientar. Os que têm dislexia e os gagos também têm essa dificuldade só que em grau bem menor. Um ouvido ouve o som primeiro do que o outro. O assincronismo entre dois ouvidos chega a ser de mais de um segundo. Isso pode explicar alguns problemas de fala. As pessoas ainda me acusam de interromper conversas. Devido a uma falta de percepção de ritmo, é difícil para mim saber quando entrar na conversação. Não consigo seguir facilmente os altos e baixos do fluxo de uma conversa.

Trecho extraído do texto - Uma visão interior do autismo por Temple Grandin.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A falta da fala por Temple Grandin

Não ser capaz de falar era uma completa frustração. Se os adultos falassem diretamente comigo eu podia entender tudo o que eles me falavam, mas eu não conseguia colocar as palavras para fora. Era como se fosse um balbucio ou uma grande gagueira. Se eu era colocada numa situação de leve "stress", as palavras às vezes superavam a barreira e conseguiam sair. Minha fonoaudióloga sabia como penetrar no meu mundo. Ela me segurava pelo queixo, me fazia olhar em seus olhos e dizer "bola".

Aos 3 anos de idade, "bola" saiu de minha garganta com grande esforço e soava mais como "bah". Se a terapeuta decidisse exigir muito de mim, eu fazia manha e pirraça. Se ela não exigisse de mim o suficiente, eu não fazia nenhum progresso. Minha mãe e meus professores ficavam imaginando porque eu gritava tanto. Os gritos eram a única maneira que eu tinha para me comunicar. Às vezes eu pensava logicamente comigo mesma, "eu vou gritar agora porque eu quero falar para alguém que não quero fazer determinada coisa".

Minha mãe conta que, no início, eu tinha um vocabulário muito limitado e enfatizava muito uma parte das palavras, como "bó" em lugar de "bola". Eu falava em frases de uma palavra só - "gelo", "vou", "meu", "não". Meus esforços deviam soar magníficos aos oividos dela. Que avanço, depois de anos de murmúrios, uivos e guinchos!

É interessante que a minha fala se pareça com a fala estressada de crianças pequenas que tiveram tumores removidos do cerebelo. Rekate, Grubb, Aram, Hahn e Ratcheson (1985) descobriram que cirurgias de câncer que tenham lesado "vermis, nuclei e os dois hemisférios do cerebelo" causaram uma perda temporária da fala em crianças normais.

Os sons das vogais eram os primeiros a retornar, e a fala receptiva era normal. Courchesne, Yeung-Courchesne, Press, Hesselink e Jernigan (1988) deram a reportagem que de cada 18 autistas que funcionam num nível de alto a moderado, 14 deles têm o cerebelo menor (cerebellar vermal lobules VI e VII). Bauman e Kemper (1985) e Ritvo et al (1986) também descobriram que os cérebros de autistas tinham um número menor de células "Purkinje" no cerebelo. No meu caso, um exame de Ressonância Magnética revelou anormalidades no cerebelo. Eu sou incapaz de andar em linha reta. O teste feito pela polícia para descobrir se o motorista está bêbado, tipo "ande na linha", não funciona comigo, eu acabo tombando para os lados. Porém minhas reações são normais para outros testes de coordenação motora simples relacionados às funções ou disfunções do cerebelo.

Estímulos vestibulares algumas vezes podem estimular a fala em crianças autistas. Balançar a criança levemente num balanço às vezes ajuda a iniciar a fala (Ray, King & Grandin, 1988). Determinados movimentos suaves, coordenados são difíceis para mim, embora eu pareça bem normal para o observador casual.

Por exemplo, quando eu opero equipamentos hidráulicos que tenham uma série de níveis, eu consigo operar perfeitamente um nível de cada vez. Coordenar os movimentos para operar dois ou três níveis ao mesmo tempo é impossível para mim. Talvez isso explique porque eu tenho tanta dificuldade em aprender a tocar um instrumento musical, embora eu tenha um talento musical nato para melodia e tonalidade. O único "instrumento" que eu consegui aprender é assoviar com minha boca.

Trecho extraído do texto - Uma visão interior do autismo por Temple Grandin.

sábado, 26 de janeiro de 2008

O autismo por Temple Grandin

Nos últimos tempos, tenho lido o suficiente para saber que ainda existem muitos pais – e, também, muitos profissionais – para os quais “uma vez autista, sempre autista”. Esse aforismo se traduziu em vidas tristes e desalentadas para muitas crianças que, como eu, receberam logo o diagnóstico de autistas. Para essas pessoas – pais e profissionais – é inconcebível que as características do autismo possam ser modificadas e controladas. No entanto, estou fortemente inclinada a julgar que sou uma prova viva do contrário. E isso parece aplicar-se especialmente às crianças autistas que conseguem obter um domínio razoável da linguagem antes de completar cinco anos de idade.

Como é possível que uma criança cujos pais ouviram que poderia ter que passar a vida toda internada tenha enganado os “especialistas”? Como é que uma criança rotulada de autista consegue vir à tona no mundo real? Ainda enfrento alguns problemas em minhas relações com as pessoas. Mas estou sobrevivendo e consigo lidar com o mundo.

Antes de tudo, o que é o autismo? O autismo é um distúrbio do desenvolvimento. Uma deficiência nos sistemas que processam a informação sensorial recebida faz a criança reagir a alguns estímulos de maneira excessiva, enquanto a outros reage debilmente. Muitas vezes a criança se “sustenta” do ambiente que a cerca e das pessoas circunstantes a fim de bloquear os estímulos externos que lhe parecem avassaladores. O autismo é uma anomalia da infância que isola a criança de relações interpessoais. Ela deixa de explorar o mundo à sua volta, permanecendo em vez disso em seu universo interior.

Qual a causa do autismo? Aí reside um mistério. Será neurológica? Será fisiológica? Um trauma intra-uterino, a rejeição pela mãe, ou a escassez de certas substâncias? Será um caso de dano cerebral? Ou será psicológico? As opiniões de muitos profissionais de destaque divergem. As pesquisas indicam que certas partes do sistema nervoso central podem não se desenvolver de maneira adequada. Por alguma razão desconhecida, os muitos milhões de neurônios que crescem no cérebro em desenvolvimento estabelecem algumas ligações erradas. Estudos do cérebro de pessoas mortas que eram portadores de dislexia, um distúrbio que pode ter alguma ligação com o autismo, indicam que alguns neurônios podem ter crescido na direção errada. O estudo de autistas usando a sofisticada aparelhagem de tomografia computadorizada indica que alguns deles possuem defeitos no desenvolvimento neuronal, e que certas áreas do cérebro podem apresentar atividades acima do normal. Mas o fato é que os sintomas, seja qual a forma de autismo desenvolvida, permanecem os mesmos.

Esses sintomas parecem surgir nos primeiros meses de vida. O bebê não responde da mesma forma que os demais. Não é surdo, pois reage aos sons. Mas suas reações a outros estímulos sensoriais são inconsistentes. O perfume de uma rosa recém-colhida no jardim pode provocar um ataque na criança – ou fazê-la recolher-se a seu mundo interior. Outros sintomas do autismo são esquivar-se ao toque alheio, ausência de fala com significado, comportamentos repetitivos, acessos de raiva, sensibilidade a barulhos altos ou incomuns e falta de contato emocional com as outras pessoas.

E quais são as formas de tratamento? Depende da escolha do freguês. Estimulação sensorial, modificação do comportamento, educação, tratamento à base de medicação, dietas, suplementos alimentares. Tudo isso já foi tentado, e cada uma dessas terapias obteve sua medida de sucesso. Certos autistas parecem responder bem a um determinado tratamento; outros, a outro. E alguns autistas requerem internação por toda a vida, devido à falta de percepção do mundo exterior ou à violência do comportamento.

Minha história é diferente, e represento uma esperança para os pais e profissionais que lidam com os autistas, pois também fui classificada como autista. Pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram que as crianças autistas apresentam um relacionamento social mais intenso do que muita gente supõe. Dizer que uma criança autista não apresenta reação absolutamente nenhuma às outras pessoas é um equívoco, uma criança autista pode apresentar reações sociais numa determinada situação, mas não em outra. As crianças autistas manifestam tanta variação de talentos, Inteligência, gostos e atrativos sociais quanto as crianças “normais”. Em 1950, recebi o rótulo de autista, mas consegui passar para o outro lado, além das trevas, tateando no escuro. Os incidentes de que me lembro cotam uma história fascinante sobre como as crianças autistas percebem e reagem de forma incomum ao mundo estranho que as cerca – o mundo ao qual tentam desesperadamente impor alguma ordem.

Trecho extraído do livro Uma Menina Estranha de Temple Grandin

Temple Grandin

Até os três anos e meio ela só se comunicou por intermédio de gritos, assobios e murmúrios. Já aos seis meses não se aninhava no colo da mãe: ficava rígida, rejeitava o corpo que queria abraçá-la. Em vez de argila ou massinha usava as próprias fezes para modelar. Podia ignorar sons altíssimos ou reagir com violência aos estalidos do celofane. O cheiro de uma flor podia deixá-la descontrolada ou fazê-la refugiar-se em seu mundo interior.

Temple Grandin é autista. Recebeu cedo esse diagnóstico. Mas seu grau de autismo não é o mais alto, e por isso o mundo que ela criou não parece com uma fortaleza inexpugnável. Temple se tornou uma profissional muito bem-sucedida. Projeta equipamentos e instalações para pecuária. Conheci Temple assistindo a uma reportagem do Globo Rural feita nos Estados Unidos sobre lida gentil, ela é uma doutora que veste roupas de cowboy, faz gestos largos, não liga para etiqueta e tem uma biografia cujo título justamente é “Uma Menina Estranha”. Temple já completou sessenta anos e com freqüência é chamada a programas de televisão e está sempre dando palestras para empresários, esportistas e até para astronautas. Ela ganhou um troféu da NASA.

“O astronauta é treinado para ter um pensamento lógico, seguir modelos matemáticos. Mas na hora em que ocorre uma falha no satélite e preciso até sair da nave, a abstração não é a melhor ferramenta. O que ajuda mais é o raciocínio visual" – contou Temple. Pensar não com palavras, mas com imagens. Criar um processo intelectual não com frases, mas com figuras, uma representação plástica como se a mente montasse um cineminha da realidade. É nesse tipo de mente visual que a doutora Temple Grandin se transformou na principal projetista de instalações para grandes rebanhos nos Estados Unidos. Os currais que desenha são redondos, pois para o gado é mais fácil seguir um caminho curvo: primeiro porque o desenho curvo “aproveita o comportamento natural do animal, que é descrever círculos”.

Temple faz uma analogia: é preciso trabalhar a favor das crianças autistas, ajudando-as a descobrir seus talentos ocultos e a se tornarem menos “estranhas”. Com a experiência própria de autista Temple tem muitas dicas para nos dar, começarei a postar essas dicas a partir hoje extraídas do livro "Uma Menina Estranha" sua autobiografia.

Peu cresceu e O Mundo de Peu também mudou.

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