domingo, 30 de agosto de 2009

A Escolha da Escola





Os progressos de Peu na escola têm sido ótimos, todos os dias a professora Loara tem uma novidade para nos contar, ele está participando, interagindo, realizando as tarefas (do jeitinho dele, mas, realizando), socializando, atento e concentrado nas atividades.

Logo que descobrimos que Peu estava no espectro do autismo ficamos na dúvida se o colocávamos em uma escola para crianças especiais, ou em uma escola normal (com educação inclusiva). Hoje, temos certeza que fizemos a escolha certa. Os educadores da escola além de aceitá-lo na sua condição de criança especial estão se capacitando para ajudá-lo a desenvolver-se.

Seus coleguinhas são um caso a parte, eles o auxiliam, o protegem e adoram enchê-lo de beijos e abraços.

Estamos muito felizes com o cuidado e amor que todos estão dedicando ao nosso filho.

Obrigado a todos da Escola Universo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Como se escreve...

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Quando Joey tinha somente cinco anos, a professora do jardim de infância pediu aos alunos que fizessem um desenho de alguma coisa que eles amavam. Joey desenhou a sua família. Depois, traçou um grande círculo com lápis vermelho ao redor das figuras. Desejando escrever uma palavra acima do círculo, ele saiu de sua mesinha e foi até à mesa da professora e disse:

- Professora, como a gente escreve...? Ela não o deixou concluir a pergunta. Mandou-o voltar para o seu lugar e não se atrever mais a interromper a aula.

Joey dobrou o papel e o guardou no bolso. Quando retornou para sua casa, naquele dia, ele se lembrou do desenho e o tirou do bolso. Alisou-o bem sobre a mesa da cozinha, foi até sua mochila, pegou um lápis e olhou para o grande círculo vermelho.

Sua mãe estava preparando o jantar, indo e vindo do fogão para a pia, para a mesa. Ele queria terminar o desenho antes de mostrá-lo para ela e disse.

- Mamãe, como a gente escreve...?

- Menino, não dá para ver que estou ocupada agora? Vá brincar lá fora. E não bata a porta, foi a resposta dela. Ele dobrou o desenho e o guardou no bolso.

Naquela noite, ele tirou outra vez o desenho do bolso. Olhou para o grande círculo vermelho, foi até à cozinha e pegou o lápis. Ele queria terminar o desenho antes de mostrá-lo para seu pai.

Alisou bem as dobras e colocou o desenho no chão da sala, perto da poltrona reclinável do seu pai e disse .

- Papai, como a gente escreve...?

- Joey, estou lendo o jornal e não quero ser interrompido. Vá brincar lá fora. E não bata a porta.

O garoto dobrou o desenho e o guardou no bolso. No dia seguinte, quando sua mãe separava a roupa para lavar, encontrou no bolso da calça do filho enrolados num papel, uma pedrinha, um pedaço de barbante e duas bolinhas de gude. Todos os tesouros que ele catara enquanto brincava fora de casa. Ela nem abriu o papel. Atirou tudo no lixo.

Os anos passaram...

Quando Joey tinha 28 anos, sua filha de cinco anos, Annie fez um desenho. Era o desenho de sua família. O pai riu quando ela apontou uma figura alta, de forma indefinida e ela disse.

- Este aqui é você, papai! A garota também riu. O pai olhou para o grande círculo vermelho feito por sua filha, ao redor das figuras e lentamente começou a passar o dedo sobre o círculo.

Annie desceu rapidamente do colo do pai e avisou: eu volto logo! E voltou. Com um lápis na mão.

Acomodou-se outra vez nos joelhos do pai, posicionou a ponta do lápis perto do topo do grande círculo vermelho e perguntou.

- Papai, como a gente escreve amor? Ele abraçou a filha, tomou a sua mãozinha e a foi conduzindo, devagar, ajudando-a a formar as letras, enquanto dizia: amor, querida, amor se escreve com as letras T...E...M...P...O (TEMPO).

Conjugue o verbo amar todo o tempo. Use o seu tempo para amar. Crie um tempo extra para amar, não esquecendo que para os filhos, em especial, o que importa é ter quem ouça e opine, quem participe e vibre, quem conheça e incentive.

Não espere seu filho ter que descobrir sozinho como se soletra amor, família, afeição.

Por fim, lembre: se você não tiver tempo para amar, crie.

Afinal, o ser humano é um poço de criatividade e o tempo...bom, o tempo é uma questão de escolha.

Autor desconhecido.

domingo, 16 de agosto de 2009

Interesses sensoriais e sensibilidades

Por razões não inteiramente compreendidas, crianças com autismo podem desenvolver uma série de sensibilidades e interesses sensoriais. Entre as explicações possíveis está o fato de que crianças com menor capacidade de "entender a essência" podem ter menos interesse no significado geral ou em entender a figura inteira e, assim, sentir maior atração pelos detalhes ou experiências sensoriais. Além disso, crianças com autismo acham que se concentrar em experiências sensoriais reduz sua ansiedade. Sentem-se à vontade ao agirem assim. Isso lhes permite evitar experiências que causam mais ansiedade, por exemplo, interagir com outros indivíduos.

Dificuldades com a imaginação também podem levar a uma tendência a concentrar-se em experiências perceptivas concretas (definidas e claras). A natureza, em parte, conduz o desenvolvimento infantil por meio de brincadeiras de tal forma que a criança possa adquirir mais aprendizado. As brincadeiras "evoluem" em consequência da imaginação. Se a imaginação estiver ausente, então as brincadeiras permanecem onde estão e envolvem padrões e rotinas. Finalmente, em consequência da cegueira mental, crianças com autismo não vêem o motivo de brincar "com" alguém; como a maioria das vezes são outras pessoas que introduzem variedade em brincadeiras, brincar sozinho diminui a probabilidade da introdução da variedade.

Qualquer que seja a razão, crianças com autismo costumam concentrar-se em ruídos, tato, sensação, gosto, aroma e experiências visuais - embora nem todas elas. Isso pode levar a preocupações ou compulsões, ou excesso de sensibilidade a certas experiências sensoriais. Por exemplo, algumas crianças ficam muito inquietas ao ouvir ruídos altos, facilmente tolerados pela maioria das pessoas. Talvez seja porque elas têm dificuldade em atribuir significado social a suas experiências perceptivas, ou pode estar relacionado à maneira como seu cérebro vivencia percepções como o som. Na verdade, não sabemos ao certo.

Sensibilidades e interesses visuais

É muito comum ver crianças com autismo que gostam de observar padrões ou certos tipos de formas ou outros estímulos visuais. Podem procurá-los regularmente e quase sempre os percebem no ambiente. Entre alguns exemplos estão:


  • Mover as mãos para frente e para trás diante dos olhos e observar as formas e padrões criados.

  • Mover, diante dos olhos, garfos ou outros objetos semelhantes.

  • Observar torres elétricas e formas interessantes.

  • Balançar contas coloridas diante dos olhos.

  • Olhar coisas através da água.

Temperatura

Algumas crianças com autismo ou são alheias ou são particularmente sensíveis à temperatura. Uma criança brincava alegremente na neve, trajando apenas uma camiseta, enquanto seus irmãos usavam casacos e suéteres. Outra insistia em usar um casaco, independente da temperatura.

Algumas crianças com autismo gostam de tocar ou lamber coisas frias (por exemplo, canos). Outras gostam de tocar objetos excessivamente quentes.


Vibração

Crianças com autismo costumam interessar-se pela vibração. Podem colocar as mãos ou partes do corpo (por exemplo, rosto ou pés) sobre a porta da máquina de lavar roupa, secadora de roupa ou canos pelos quais a água corre.


Tato e textura

Textura pode ser interessante para indivíduos com autismo. A sensação da pele ou cabelos pode despertar interesse em algumas crianças com ASD. Elas podem querer tocar ou esfregar as mãos na pele ou tocá-la com os lábios ou beijá-la.

Algumas crianças podem demonstrar grande interesse por diversas texturas e acariciam roupas deliberada ou distraidamente. Outras podem ser muito sensíveis às etiquetas nas roupas e insistem que elas sejam removidas antes de vestir-se. Algumas não toleram certos tecidos e recusam-se a usar qualquer coisa feita com materiais sintéticos.


Olfato

Muitas crianças com autismo percebem alterações de aroma no ambiente. Podem cheirar a comida, objetos ou outras pessoas à medida que exploram aromas.

Alguns pais dizem que seus filhos regularmente cheiram os alimentos antes de comê-los, aparentemente verificando se são conhecidos.

Algumas crianças acham difícil suportar os aromas de vários produtos de limpeza.


Paladar

Algumas crianças com autismo lambém alimentos e superfícies. Elas exploram pelo paladar e podem ser muito sensíveis aos sabores, surpreendendo os pais quando percebem a diferença entre várias marcas de cereais, feijões e petiscos, quando outros indivíduos parecem totalmente alheios a isso.


Sons

Algumas crianças com autismo ficam fascinadas com os sons do ambiente. Ao contrário de outras crianças, elas demonstram menos interesse no significado do som do que no próprio som. Algumas crianças procuram um ruído em determinado vídeo e o repetem várias vezes, ou gostam de manter o som em determinada altura; outras ficam fascinadas por ruídos domésticos como os da panela de pressão, exaustores etc.

É muito comum criança com autismo temerem, ao extremo, sons altos feitos por cortadores de grama, motores de helicóptero, aspiradores de pó, liquidificadores, trânsito pesado ou sinetas escolares. Na maioria dos casos, a reação instantânea da criança ao vê-los ou ouvi-los é levar as mãos aos ouvidos.

Trecho extraído do livro Convivendo com Autismo e Síndrome de Asperger

domingo, 2 de agosto de 2009

Haja o que houver, eu estarei sempre com você

Na Romênia , um homem dizia sempre a seu filho:

- Haja o que houver, eu sempre estarei a seu lado.

Houve, nesta época um terremoto de intensidade muito grande, que quase arrasou as construções lá existentes nesta época.

Estava nesta hora este homem em uma estrada. Ao ver o ocorrido, correu para casa e verificou que sua esposa estava bem, mas seu filho nesta hora estava na escola.

Foi imediatamente para lá. E a encontrou totalmente destruída. Não restou, uma única parede de pé...

Tomado de uma enorme tristeza. Ficou ali ouvindo, a voz feliz de seu filho e sua promessa (não cumprida).

Haja o que houver : eu estarei sempre a seu lado.

Seu coração estava apertado e sua vista apenas enxergava a destruição. A voz de seu filho e sua promessa não cumprida, o dilaceravam. Mentalmente percorreu inúmeras vezes o trajeto que fazia diariamente segurando sua mãozinha. O portão (que não mais existia) ; Corredor... Olhava as paredes, aquele rostinho confiante. Passava pela sala do 3º ano, virava o corredor e o olhava ao entrar .

Até que resolveu fazer em cima dos escombros, o mesmo trajeto. Portão... Corredor... Virou a direita... E parou em frente ao que deveria ser a porta da sala. Nada! Apenas uma pilha de material destruído. Nem ao menos um pedaço de alguma coisa que lembrasse a classe. Olhava tudo desolado. E continuava a ouvir sua promessa Haja o que houver, eu sempre estarei com você. E ele não estava...

Começou a cavar com as mãos. Nisto chegaram outros pais, que embora bem intencionados, e também desolados, tentavam afastá-lo de lá dizendo:

- Vá para casa. Não adianta, não sobrou ninguém. - Vá para casa.

Ao que ele retrucava:

- Você vai me ajudar? Mas ninguém o ajudava, e pouco a pouco, todos se afastavam. Chegaram os policiais, que também tentaram retirá-lo dali, pois viam que não havia chance de ter sobrado ninguém com vida. Haviam outros locais com mais esperança.

Mas este homem não esquecia sua promessa ao filho, a única coisa que dizia. para as pessoas que tentavam retirá-lo de lá era : - Você vai me ajudar ? Mas eles também o abandonavam.

Chegaram os bombeiros, e foi a mesma coisa.

- Saia daí, não está vendo que não pode ter sobrado ninguém vivo? Você ainda vai por em risco a vida de pessoas que queiram te ajudar pois continuam havendo explosões e incêndios. Ele retrucava :

- Você vai me ajudar? - Você esta cego pela dor não enxerga mais nada. Ou então é a raiva da desgraça. - Você vai me ajudar? Um a um todos se afastavam.

Ele trabalhou quase sem descanso, apenas com pequenos intervalos, mas não se afastava dali. 5 - 10 – 12 – 22 – 24 - 30 horas. Já exausto, dizia a si mesmo que precisava saber se seu filho estava vivo ou morto. Até que ao afastar uma enorme pedra, sempre chamando pelo filho, ouviu:
- Pai ...estou aqui!

Feliz fazia mais força para abrir um vão maior e perguntou:

- Você está bem?

- Estou. Mas com sede, fome e muito medo.

- Tem mais alguém com você?

- Sim, dos 36 da classe 14 estão comigo, estamos presos em um vão entre dois pilares. Estamos todos bem.

Apenas conseguia se ouvir seus gritos de alegria.

- Pai, eu falei a eles: Vocês podem ficar sossegados, pois meu pai irá nos achar. Eles não acreditavam, mas eu dizia a toda hora ... Haja o que houver, meu pai, estará sempre a meu lado.

- Vamos, abaixe-se e tente sair por este buraco.

- Não! Deixe eles saírem primeiro... Eu sei; que haja o que houver... Você estará me esperando!

(Esta história é verídica)

Entendendo a essência

Quando vemos algo, seja um quadro ou uma frase em um livro, ou o mundo real, constatamos a abundância de detalhes. Em um quadro há muitas cores, formas, tamanhos e objetos. Muitos de nós temos a capacidade de reunir muitas informações a partir de uma situação para compreendê-la. Podemos ver o quadro como um todo. Isso é denominado "impulso de coerência central" (nós o denominamos "entender a essência"). Por exemplo, se ouvirmos os sinos da igreja badalando e vermos um grande grupo de pessoas trajando belas roupas e chapéus, jogando confete em um casal fora da igreja, podemos concluir que se trata de um casamento.

Crianças com autismo parecem ter grande dificuldade em reunir informações dessa maneira para entender a essência do que está acontecendo ou do que se espera delas. No exemplo do casamento dado acima, a criança com autismo pode concentrar-se nos sinos da igreja badalando, ou nos pedacinhos de papel voando, mas não identifica o evento como um casamento. Se estivéssemos em uma sala de aula e o professor dissesse "Peguem seus lápis", entenderíamos que a lição estava prestes a começar e teríamos de escrever alguma coisa. Relacionamos os detalhes das palavras na frase ao contexto. Contudo, uma criança com autismo pode literalmente pegar seu lápis em sala de aula. Ou seja, crianças com autismo têm dificuldade em entender a essência. Elas podem não entender o significado geral quando estão diante dos detalhes, mas se preocupam com eles.

Esta dificuldade em entender a essência aplica-se ao uso da linguagem pela criança, bem como à sua compreensão de figuras, histórias, eventos e objetos.


O uso da linguagem falada

A linguagem é formada por várias palavras. Quando ouvimos uma frase, usamos seu contexto para compreender o detalhe das palavras dentro dela. Se alguém diz "A mulher levou o cão à praia", instantaneamente temos em nossa mente a imagem do que está acontecendo. Essa capacidade de entender a essência nos permite intantaneamente saber que a palavra "levou" refere-se à ação de conduzir. Não precisamos pensar muito.

Crianças com autismo podem ter a conclusão errada porque têm problemas em referir-se ao contexto e detalhes, um em relação ao outro. A maioria das pessoas faz isso intuitivamente, sem pensar.

Somos capazes de entender a essência do significado de frases e orações intuitivamente, mas às vezes erramos. Podemos nos lembrar de situações nas quais nos concentramos incorretamente em determinada palavra em uma frase. O sentido global da frase e o objetivo social que a cerca talvez tenham se perdido. Recentemente, uma amiga minha viu-se em uma situação difícil enquanto passava férias na França. Ela notou que havia uma grande rachadura em uma das paredes e pediu a um pedreiro francês que desse uma olhada. Infelizmente, com seu francês limitado, ela pediu-lhe que subisse com ela para que ela lhe mostrasse l´amour (amor) quando, na verdade, ela queria dizer le mur (a parede)! As palavras têm sons similares, mas significados diferentes. Essa situação foi logo solucionada e ambas as partes viram o lado cômico do erro.

Para crianças com dificuldades relacionadas ao espectro do autismo, sua própria linguagem pode parecer tão confusa quanto os idiomas estrangeiros para a maioria das pessoas. Quase sempre isso acontece porque elas se esforçam muito para entender a essência da situação, visto que não conseguem entender o significado das palavras dentro do contexto correto. Por exemplo:

  • Uma mãe comentou: "Oh, meu Deus, meu pé está molhado. Deve ter um furo na minha bota." A filha insistiu que a mãe tirasse a bota e o furo. Nesse caso, a criança não conseguiu usar o contexto para entender que o furo que a mãe mencionou não era um objeto removível.

  • Uma avó relatou que disse à neta que gostava de enfiar os "pés grandes" na água morna. A neta ficou assustada e inquieta, insistindo em verificar se avó não tinha, subitamente, adquirido pés como o do Pé Grande em seu livro de história.

Trecho extraído do livro Convivendo com Autismo e Síndrome de Asperger