sábado, 10 de janeiro de 2009

O dia em que eu estava tão ocupada

“Mamãe, veja!”, gritou minha filha de sete anos, Darla, apontando para um filhote de falcão planando no ar.

“Hum, hum”, murmurei, enquanto dirigia, pensando no horário apertado daquele dia.

Seu rostinho mostrava decepção.

“O que foi, querida?”, perguntei, completamente absorta em meus pensamentos.

“Nada”, respondeu Darla. O momento se fora. Perto de casa, diminuí a velocidade para tentar ver o coelhinho que toda noite aparecia vindo de trás das árvores, mas ele não estava lá.

“Esta noite ele está muito ocupado”, eu disse.

Em casa, as tarefas me esperavam: jantar, banho, telefonemas, arrumações. Até que chamei Darla para dormir. Ela subiu as escadas correndo. Cansada, beijei seu rosto, rezamos e a coloquei na cama.

“Mamãe, esqueci de lhe dar uma coisa!”, ela disse.

“Deixa para dar amanhã”, respondi, impaciente.

Mas ela balançou a cabeça e retrucou: “Você não vai ter tempo amanhã!”

“Vou sim!”, respondi, na defensiva.

Às vezes, por mais que tentasse, o tempo me escorregava entre os dedos como areia numa ampulheta. Nunca era suficiente. Nem para minha filha, nem para meu marido, nem para mim.

Ela ainda não desistira. Franziu o narizinho pintado de sardas numa careta e jogou o cabelo castanho para trás.

“Não vai não! Vai ser como hoje, quando eu falei para você olhar o falcão. Você nem prestou atenção!”

Eu estava muito cansada para discutir e ela chegara bem perto da verdade.

“Boa noite”, fechei a porta do quarto dela com força.

Mais tarde, me lembrando de seu olhar azul-acinzentado, pensei que daqui a pouco ela cresceria e iria embora.

Meu marido perguntou por que eu estava tão abatida e lhe contei.

“Talvez ela ainda esteja acordada. Por que você não vai lá?”, ele falou, exercendo seu papel de pai.

Segui seu conselho, preferindo que a idéia tivesse sido minha.

Abri a porta e a luz vinda da janela iluminava a cama. Nas mãos de Darla, um papel amassado. Devagar, abri sua mão para saber a causa de nosso desentendimento.

Fiquei com os olhos cheios d’água. Ela rasgara em pedacinhos um grande coração vermelho com um poema intitulado “Por que Amo Minha Mãe!”.

Catei os pedacinhos, montei o quebra-cabeça e li:

Por que Amo Minha Mãe!

Mesmo tendo tanta coisa pra fazer e trabalhando tanto,
Você sempre encontra tempo pra brincar.
Amo você, mamãe,
Porque sou a parte mais importante do seu dia tão ocupado!


As palavras foram como uma flecha direta no meu peito. Com sete anos, minha filha tinha uma sabedoria extraordinária.

Dez minutos depois, levei até seu quarto uma bandeja com duas xícaras de chocolate quente e dois sanduíches com seu recheio favorito. Quando toquei de leve no seu rosto, senti meu coração transbordar de amor.

Ela acordou piscando com seus lindos cílios e olhou para a bandeja.

“Para que isto?”, perguntou, confusa com a invasão noturna.

“É para você, que é a parte mais importante do meu dia tão ocupado.”

Ela sorriu e, sonolenta, bebeu a metade do seu chocolate. Então voltou a dormir. Fiquei ali um longo tempo, acariciando o seu cabelo, dizendo o quanto a amava e como achava lindo que a minha filhinha de sete anos pudesse me ensinar coisas tão fundamentais.

Cindy Ladage

A melhor herança que os pais podem dar
a seus filhos são alguns minutos de seu tempo todos os dias.

O. A. Batista

Texto extraído do livro Histórias para Aquecer o coração das Mães

Um comentário:

  1. oi, meu nome e zeine, sou mae de 4 filhos de 17,15,10 e um menino lindo que e autista e essa historia me deixou emocionada, porque paasso por isso quase todos os dias. ha dias em que acho que dei conta do recado, mas a maioria deito na cama pra dormir e sei o quanto deixei de fazer e sempre prometo que amanha sera diferente, as vezes da certo, mas quase sempre a correria, o desgaste fisico e emocional, a rotina do dia a dia me vencem. queria ser perfeita para todos aqui, mas sou apenas a zeine...

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