sábado, 2 de fevereiro de 2008

O menino lobo

Por diversas vezes já me peguei chamando Peu de Mogli o menino lobo do desenho animado de Disney, não no sentido pejorativo, mas pela semelhança física (quando ele desfila somente de cueca pela casa) e por suas habilidades em subir e descer nos móveis (sofá, cadeiras, mesa, cama, etc.) como se fossem árvores, troncos ou rochas.

No desenho animando de Disney, Mogli foi abandonado ainda bebê por seus pais no meio de uma floresta onde foi encontrado por uma matilha de lobos que o alimentou e o criou. Mogli cresceu e sobreviveu neste habitat por muitos anos quando finalmente teve contato com outros seres humanos de uma aldeia próxima. A história mostra também a dificuldade que seus amigos (um urso e uma pantera) enfrentam para fazê-lo abandonar a selva e ir viver com os homens.

Como em todos os desenhos de Disney existem animais falantes e temas musicais, o tema de Mogli e seu papai urso Balu é assim:

“Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais.
Necessário, só uso o necessário, por isso nessa vida eu vivo em paz.”

Ou seja, um total desapego a qualquer coisa que não seja utilizada para atender as suas necessidades básicas. Você deve estar se perguntado, o que isso tem a ver com autismo? Já explico: Há registros que mostram que, em 1802, pela primeira vez, foi dada atenção a uma criança autista. O Doutor Jean Itard, médico de um instituto de surdos-mudos de Paris, aceitou tratar de um menino selvagem que havia sido abandonado em um bosque.

Os lobos ocupam, na história da educação especial, o lugar de “pais/semelhantes” para os sujeitos encontrados em florestas, provavelmente abandonados em função de suas limitações e diferenças. A associação entre as crianças selvagens e o autismo tem sido discutida pela literatura especializada, com base nos indícios de semelhanças entre esses dois grupos de sujeitos. Porém, há muitos obstáculos para que se possa avançar nessa perspectiva de entendimento. Um desses obstáculos é a variabilidade de sintomas que caracterizam a síndrome do autismo, exigindo cuidados na ação diagnóstica, mesmo quando estamos diante da criança e dispomos de uma ampla quantidade de informações a seu respeito.

O caso mais famoso é o de Victor de Aveyron que inicialmente foi levado para ser avaliado por Philippe Pinel grande expoente do estudo das doenças mentais da França no século XVIII, que traçou o seguinte perfil sobre Victor:

(...) apresenta-se incapaz de atenção, senão a objetos de suas necessidades, e, conseqüentemente, incapaz de todas as operações do espírito que implicam essa primeira; desprovido de memória, de julgamento, de capacidade de imitação e tão limitado nas idéias, mesmo que relativas às suas necessidades, que ele não conseguiu ainda nem mesmo abrir uma porta ou subir a uma cadeira para atingir alimentos pendurados acima do alcance de sua mão; finalmente, desprovido de qualquer meio de comunicação, não ligando nem expressão, nem intenção aos gestos e movimento do seu corpo; passa com rapidez e sem qualquer motivo presumível de uma tristeza apática às explosões de riso mais imoderadas; insensível a todo o tipo de afecções morais; seu prazer, uma sensação agradável dos órgãos do gosto; sua inteligência, a aptidão de produzir algumas idéias incoerentes relativas às suas necessidades; toda a sua existência, em uma palavra, um vida puramente animal.

Jean Itard

Jean Itard, contemporâneo de Pinel, não concordava com essa indicação e acreditava na educabilidade do menino. Médico brilhante, Itard tinha 25 anos quando assumiu o cargo de médico-chefe do Instituto Imperial dos Surdos-Mudos de Paris, é considerado pela literatura especializada como o fundador da educação especial, pois, a partir de seu trabalho com Victor de Aveyron, elaborou o primeiro programa sistemático de educação especial.

Segundo Itard, Victor seria possuidor de uma deficiência, porém pensava que essa pudesse estar relacionada com seu modo de vida precedente, em uma floresta junto apenas de animais, sem qualquer contato com seres humanos. Para Itard, a cura de Victor dependeria da estimulação e ordenação da experiência, já que considerava que a causa da deficiência do mesmo era decorrente da privação de experiências intelectuais, como também da falta de contato com seres de sua espécie. Com base nesse pressuposto, Itard assumiu a educação de Victor, subsidiado pelo governo francês. Transferiram-se para uma casa fora da cidade, em companhia da governanta Madame Guérin. O nome “Victor” foi dado por Itard ao menino-selvagem porque este apresentava um curioso interesse pelo som da letra “o”.

O médico-educador conseguia ver no retraimento e na tristeza de Victor algo mais que os sintomas de uma patologia. Tais manifestações seriam um reflexo da chocante experiência de ter sido capturado. Diz Itard:

“Foi nesse estado deplorável que o viram curiosos de Paris e que, depois de um exame de alguns minutos, julgaram-no digno de ser enviado às Petites Maisons; como se a sociedade tivesse o direito de arrancar uma criança a uma vida livre e inocente para enviá-la a morrer de tédio num hospício, e ali expiar a infelicidade de ter enganado a curiosidade pública. Julguei que existia uma solução mais simples e sobretudo mais humana: era a de usar para com ela bons tratos e muita condescendência com seus gostos e inclinações.”

Para a educação de Victor, Itard estabeleceu vários objetivos e em todos eles demonstrava a sua busca de contemplar certa “liberdade”, deixando-o viver, na medida do possível a sua maneira. Itard ressalta que teria sido tanto inútil quanto desumano contrariá-lo: (...) foi preciso torná-lo feliz à sua maneira, deitando-o ao cair do dia, oferecendo-lhe fartamente alimentos de seu gosto, respeitando sua indolência e acompanhando-o em seus passeios, ou melhor, em suas correrias ao ar livre, e isso fosse qual fosse o tempo que pudesse fazer.

Itard junto com Madame Guérin asseguraram a Victor a continuidade afetiva indispensável à estabilidade das aprendizagens e ao progresso contínuo de seu desenvolvimento.

E, todas às vezes em vejo Peu correndo pela casa só de cueca grito: Ei Mogli! Na intenção de trazê-lo para conviver na aldeia dos homens.

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