terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Autismo: atuais interpretações

Foi tão difícil para eu entender de imediato o que é autismo que abaixo transcrevo um trecho do livro Autismo e Educação de Cleonice Bosa que dá uma idéia de como me senti quando comecei a pesquisar sobre o tema.

Escrever sobre o autismo tem sido, historicamente, um desafio para todos os profissionais envolvidos com essa questão. Poucas patologias do desenvolvimento suscitaram tanto interesse e controvérsias, situação que se tem tornado aparente pelo volume crescente de artigos, livros e trabalhos apresentados em congressos sobre esse tema.

Tal acúmulo de estudos reflete não apenas interesse, mas, sobretudo, nossa ignorância sobre vários aspectos que ainda permanecem obscuros, dentre os quais destaca-se a questão da definição, a etiologia, o diagnóstico, a avaliação e a intervenção. Contudo, longe de ser o caos, são justamente as incertezas que permeiam essa condição que incitam os profissionais de diferentes áreas a realizarem um trabalho conjunto, que não seja apenas o somatório de suas experiências isoladas.

Entre os tipos mais comuns de indagações e confusões acerca do autismo estão as seguintes questões: é doença psiquiátrica? É psicose? É de causa orgânica? Só ocorre em famílias de alto poder aquisitivo e cultural? Resulta de rejeição e falta de afeto parental? Tem cura? Qual o tipo de intervenção mais adequada? Uma escola especial? Uma clínica?

Uma revisão rápida da literatura permite-nos encontrar a palavra "autismo" escrita de diferentes formas - com "a" maiúsculo e minúsculo, com e sem artigo precedendo a palavra (o Autismo? Ou o autismo?), como síndrome comportamental, síndrome neuropsiquiátrica/neuropsicológica, como transtorno invasivo do desenvolvimento, transtorno global do desenvolvimento, transtorno abrangente do desenvolvimento, transtorno pervasivo do desenvolvimento (essa palavra nem consta no Aurélio!), psicose infantil, precoce, simbiótica, etc. Ouve-se falar em pré-autismo, pseudo-autismo e pós-autismo. E está instaurada a confusão! Paradoxalmente, estamos em uma espécie de torre de Babel, discutindo os "problemas de linguagem e comunicação" dos autistas, quando nem mesmo nós estamos em condições de conceber o autismo de forma de forma consensual por uma razão muito simples: a concepção do autismo passa pela própria concepção de cada profissional sobre a relação entre desenvolvimento e psicopatologia; em um nível ainda mais básico, passa pela eterna discussão sobre a relação mente-corpo.

Na década de 1930, Leo Kanner, autor das primeiras publicações sobre autismo, já denunciava o monopólio de grupos que advogavam para si a propriedade sobre qualquer conhecimento relacionado ao autismo e o alarde precipitado de curas milagrosas (Kanner, 1968). Nesse mesmo artigo, chamava a atenção para o quanto o nosso conhecimento acerca da etiologia e do tratamento do autismo era limitado, contando-se, predominatemente, com especulações teóricas. Ressaltava três aspectos sobre os quais deveriam fundamentar-se as especulações em torno do autismo: modéstia, humildade e cautela. Segundo ele, somente assim nos resguardaríamos de uma atitude pseudocientífica e de "gritos prematuros de Eureka". Essas observações nunca nos pareceram tão atuais e verdadeiras.

Um comentário:

  1. Marcelo, não existe a palavra 'pervasivo' em português. Isso é um anglicismo, e dos piores. 'Pervasive', no contexto em questão (pervasive developmental disorder, PDD), significa 'abrangente' ou 'global', e não 'invasivo' (outro contexto). Portanto, falar em 'transtorno invasivo do desenvolvimento' (TID) também não é correto. A tradução mais usada para 'pervasive' é 'global', o que deu na sigla TGD em português -- muito embora 'abrangente' fosse uma opção melhor. Sobre o autismo (com minúscula, não vem de nome próprio) e a síndrome de Asperger, recomendo a entrevista (em duas partes) com o Dr José Salomão Schwartzman, neuropediatra, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto. Está no site do Dr Drauzio Varella, cada parte dividida em alguns tópicos (botões).

    O que complica o entendimento do termo 'transtorno global do desenvolvimento' (TGD) é que ele não é um transtorno em si (um diagnóstico), e sim um grupo de transtornos (ver Wikipedia, em inglês). Há cinco TGDs: o autismo (autismo clássico, o mais conhecido), o autismo atípico (o mais comum), a síndrome de Asperger, a síndrome de Rett e a síndrome de Heller. O autismo atípico também é chamado de 'sem outra especificação' (not otherwise specified), dando a sigla TGD-SOE em português (PDD-NOS em inglês). A síndrome de Heller, por sua vez, é mais conhecida como transtorno desintegrativo da infância (childhood disintegrative disorder, CDD). Como se não bastasse, alguns autores consideram todos esses cinco transtornos como transtornos do espectro autista (autism spectrum disorders, ASD), enquanto outros consideram apenas os três primeiros (os dois últimos são mais raros e parecem ter origem diversa).

    Além disso, é preciso ter em mente que existe uma infinidade de tratamentos pseudocientíficos e fraudulentos para o autismo, alguns deles perigosos. Esse campo está cheio de charlatães médicos (quacks), birutas (cranks, crackpots, kooks) e pais auto-iludidos. Alguns até alardeiam, de forma irresponsável, que o autismo é causado pela vacinação pública. Outros falam em cura do autismo, quando na verdade o que houve foi um diagnóstico errado. Isso ocorre porque não há limites para a ganância, a ignorância e a credulidade humanas, porque o poder público é omisso, e também porque pais desesperados estão dispostos a tudo por seus filhos -- o desespero, como o amor, é cego. Sobre isso, recomendo o site Science-Based Medicine (conteúdo em inglês).

    Embora o autismo tenha fundo genético, suas causas permanecem desconhecidas, e ainda não existe cura. Em casos graves, há medicamentos para atenuar sintomas. O que de melhor se pode fazer contra ele é procurar um neuropediatra para um diagnóstico precoce (nem sempre fácil), e iniciar uma terapia baseada na análise aplicada do comportamento (applied behavior analysis, ABA) o quanto antes. É uma das poucas coisas que realmente funcionam (com evidências científicas). Também é bom lembrar que cada caso é um caso, e outras intervenções paralelas são possíveis. Esperanças reais residem no avanço da medicina, que tem sido cada vez mais rápido e surpreendente.

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